quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Para todas as coisas.

Para seduzir, olhar.
Para divertir, bobagem.
Para o carro, devagar.
Mas para enfrentar, coragem.

Para acreditar, mentira.
Para discutir, opinião.
Para levantar, sol.
Mas para dormir, colchão.

Para entender, conflito.
Para se ganhar, amigo.
Para deletar, mensagem.
Para o verão, viagem.
Para fofocar, revista.
Para uma dieta, açúcar.
Para distrair, TV.
E para amar, você.

Para encontrar, vontade.
Para atravessar, a ponte.
Para desejar, sorte.
E para ouvir, Marisa.

Para Capitu, Machado.
Para uma mulher, Clarice.
Para Guimarães, Brasil
Na terceira margem do rio.

Para o secador, molhado.
Para o colar, anel.
Para o batom, um beijo
Sempre muito apaixonado.

Para se pintar, espelho.
Para se perder, aposta.
Para dividir, segredo.
Para namorar, se gosta.

Para um biscoito, avó.
Para comprar, essencial.
Para todas as coisas, nó.
E para terminar, final.
Ana Cañas
Depois, querida, ganharemos o mundo!


Minhas asas azar.

Ela estava toda desleixada, pensa: no meio da tarde pegando ônibus com a temperatura de 35ºC ninguém é bonito. Deveria estar às 15hrs no colégio, mas chega na parada às 14:50, com medo de se atrasar mais ainda pega qualquer ônibus, para o azar dela o ônibus pára léguas longe de seu colégio. Então lá vai ela, andando milhas e milhas sob o sol que faz neguinho ficar azul, atravessa sinal aberto, com suas pernas trêmulas de tanto caminhar ela chega ao tão esperado colégio, Deus até deu uma forcinha - quando chegou lá o elevador havia aberto as portas somente para ela. Iria fazer provas de Linguagens no 6º andar, não havia estudado mas estava lá, a inspetora a barrou, seu atraso a fez perder a prova. Ela respirou fundo com olhos cheios de lágrimas, disse: não acredito, não acredito, não acredito, a vida estar de mal comigo. Pensou em ligar para a mãe e avisar que estava cansada e se ela poderia buscá-la, mas lembrou que quando saiu de casa sua mãe estava no salão de beleza e que não sabia o número novo do celular dela. Não teve jeito. Ela voltou caminhando com malemolência para a parada de ônibus, passa na frente da igreja e faz o sinal da cruz. Pega o ônibus que normalmente vai vazio naquele horário, mas o mundo estava em caos, estava lotado. Por fim das contas, ela chega em casa e não tem coragem de sair novamente e ir até o cursinho para assistir a aula de História que ela tanto gosta, e dorme até o outro dia pra curar a porrada que o mundo a deu, alguém a pregou uma peça e ela caiu.

domingo, 4 de outubro de 2009

Monet.

Estou ouvindo música. Debussy usa as espumas do mar morrendo na areia, refluindo e fluindo. Bach é matemático. Mozart é o divino impessoal. Chopin conta a sua vida mais íntima. Schoenberg, através de seu eu, atinge o clássico eu de todo o muno. Beethoven é a emulsão humana em tempestade procurando o divino e só o alcançando na morte. Quanto a mim, que não peço música, só chego ao limiar da palavra nova. Sem coragem de expô-la. Meu vocabulário é triste e às vezes wagneriano-polifónico-paranóico. Escrevo muito simples e muito nu. Por isso fere. Sou uma paisagem cinzenta e azul. Elevo-me na fonte seca e na luz fria.
Clarice Lispector.


Ah felicidade!

Eu tentei evitar, liguei a tevê e deitei no sofá, desde que haja tempo pra sonhar e assuntos pra desenvolver. Não é muito fácil desligar, me dá pena do meu chinês. Por ele eu passava o dia inteiro a meditar. Bebendo chá verde ele me diz: "Fica feliz que vai funcionar."
Mas eu tô feliz, eu juro pelo meu irmão. O saldo final de tudo foi mais positivo que mil divãs. Por isso que não adianta querer julgar, é cada um por si na sua própria bolha de ar. Mas o que eu penso mesmo é encontrar alguém que me dê carinho e beijo, e me trate como um nenêm, me trate muito bem.
Ah, eu só quero amor, seja como for o amor. Seja bom, seja bom, Seja bom, seja amor. Me faz mais feliz, me dá asas pra fluir e cantar o amor.
Tiê - Chá verde.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

02/10 Primavera chega.

Hoje de manhãzinha saí, dei uma volta e sentei na calçada de uma praça, como boa cidade nortista há sempre muitas árvores e fiquei assim, na frente do rio Amazonas sob a sombra de uma bela palmeira, ou uma mangueira, e fiquei olhando, olhando, olhando, olhei atrás de mim e havia a OAB e orgulhosa disse: ''essa arquitetura é neoclássica!'' E pelos galhos o sol tatuava minha pele com formas geométricas.

Quanta belezura, Senhora Primavera, sejas bem-vinda! E agradeço pela gentileza e por apaixonadamente bateres em minha porta!


Epifanias urbanas.

Preciso de um banho, mas aquele banho para acordar mesmo, esfregar o sabão até ralar a pele, até o branco ficar vermelho. Andei o dia todo na rua, observando, tateando e pensando nas coisas, nada especifico, somente nas coisas. Tateando os postes, observando aquele vestido da mulher que acabara de sair do banco, pensando naquele homem que dirigia um carro importado e como seria sentir o gosto dos seus lábios tão rosa e pêlos tão claros roçando na minha pele, talvez eu tenha me apaixonado, uma paixão que havia durado 15 minutos. E quando eu dou voltas em alamedas assombrosas e vejo cachorros abandonados, essas coisas feias e tristes que não são importantes se tornam obras de arte para mim, vejo profundidade, essas coisas parecem falar, nada é o que parece. Vi um apê de dois andares, o primeiro andar deve ter sido algum negócio que faliu e alguém morava em cima, era uma varanda tão pequenina, havia uma porta e uma janela gradeada e fechada, havia no canto um vaso com uma planta mal cuidada, uma cadeira de balanço e um cachorro que parecia estar velho. Esteticamento era feio, abandonado, mas me deu uma vontade grande de morar alí, queria aquela simplicidade para mim, aquilo era tão terno. Me imaginei abrindo aquela janela para o vento e a sorte entrar. Apesar de todos os meus problemas, defeitos e sujeiras, alguma coisa me diz que eu levaria bons fluídos para alí.

É tão engraçado. Saío assim pelas ruas, me apaixonando e esquecendo, imaginando e me despedindo, assim mato minha sede. Fico me perguntando: será que isso é normal? Ou eu tenho uma mente esquizóide? No fundo não quero saber a resposta. Essas pequenas aventuras é que me faz uma pequena... uma pequena pensadora, coisa ridícula. Mas de qualquer forma, preciso de um banho. Banho para acordar, banho para voltar ao meu rumo senso-comum sem fim. Banho para lavar pensamentos e cabelos.